Friedrich Nietzsche

 

Entre as filhas do deserto

 

tradução de 1986

 

 

1

 

«Não te vás embora! disse então o viandante que se intitulava a sombra de Zaratustra, fica connosco, — senão a antiga, a turva angústia poderá voltar a afligir-nos.

 

Já esse velho feiticeiro nos mimoseou com o seu pior e olha, esse bom papa piedoso tem lágrimas nos olhos e navega novamente no mar da melancolia.

 

Esses reis ainda querem mostrar-nos boa cara: mas se não tivessem testemunhas aposto que também retomariam o maligno jogo,

 

— o maligno jogo das nuvens que passam, da melancolia húmida, dos céus encobertos, dos sóis roubados, dos uivantes ventos outonais,

 

— o maligno jogo dos nossos prantos e gemidos de aflição: fica connosco, Zaratustra! Há aqui muita miséria escondida que quer falar, muita treva, muita nuvem, muito ar abafado!

 

Tu alimentaste-nos com fortes manjares viris e com vigorosas máximas: não permitas que à sobremesa nos ataquem de novo os moles espíritos mulheris!

 

Só tu tornas macio e claro o ar que te rodeia! Alguma vez encontrei na Terra ar tão bom como o da tua gruta?

 

Muitas terras já vi, o meu nariz já aprendeu a provar e comparar ares diversos: mas é junto a ti que as minhas narinas sentem o mais inebriante prazer!

 

A não ser que —, a não ser que —, oh, perdoa a antiga recordação! Perdoa-me uma velha canção de após-ceia que um dia compus junto das filhas do deserto.

 

Junto delas havia sempre o mesmo ar bom e claro do Oriente; aí, estive o mais longe possível da velha Europa nublada, húmida, melancólica!

 

Outrora amei essas raparigas do Oriente e outro céu azul que nenhuma nuvem, nenhum pensamento toldam.

 

Nem podereis acreditar no decoro com que ali estavam sentadas, quando não dançavam, profundas nos seus pensamentos, como pequenos mistérios, como enigmas adornados de fitas, como nozes para a sobremesa —

 

estranhas e multicores, é certo! mas sem nuvens: enigmas que se deixam decifrar: foi por amor delas que inventei outrora um salmo para sobremesa».

 

Assim falou o viandante que se intitulava a sombra de Zaratustra; e antes que alguém lhe respondesse já tinha agarrado a harpa do velho feiticeiro e cruzado as pernas olhando sabiamente em seu redor: — as suas narinas sorviam o ar lentamente, interrogando, como alguém que em novas terras prova um novo ar. Por fim, com uma espécie de rugido, começou a cantar.

 

 

2

 

O deserto cresce: ai de quem abriga desertos...

 

 

3

 

Ah!

Solenemente!

um início digno!

solenemente africano!

digno de um leão

ou de um macaco moralista aos guinchos...

— mas isto não é para vós,

ó encantadoras amigas,

a cujos pés é dado sentar-me,

a mim europeu,

sob as palmeiras. Sela.

 

Em verdade maravilhoso!

Eis-me pois aqui sentado

próximo do deserto e contudo

tão distante do deserto também,

neste nada já devastado:

ou seja tragado

por este pequeno oásis

— agora mesmo bocejando

abriu a sua deliciosa boca,

a mais aromática de todas as boquinhas:

nela caí então,

penetrei-a, afundei-me — entre vós

ó encantadoras amigas! Sela.

 

Salve, salve aquela baleia

se ao seu hóspede

deu bem-estar! — compreendeis

a minha alusão erudita?...

Salve o seu ventre,

se assim foi

um tão ameno ventre-de-oásis,

tal como este: do que todavia eu duvido.

Ou não viera eu da Europa

mais desconfiada que todas as esposazinhas.

Que Deus a melhore!

Ámen!

 

Eis-me pois aqui sentado

neste minúsculo oásis,

como uma tâmara

tostada, melada, supurando ouro,

ávida de uma boca redonda de rapariga,

mas ainda mais da mordedura de dentes de rapariga

gelados, alvos como a neve, cortantes:

é por estes, sim,

que anseia o coração de todas as tâmaras quentes. Sela.

 

Semelhante, demasiado semelhante

a esses frutos meridionais

eis-me aqui,

envolvido nas danças e nos jogos

de pequenos escaravelhos alados,

e também por desejos e pensamentos

mais pequenos ainda,

mais tolos e mais maldosos, —

cercado por vós

ó silenciosas, ó misteriosas

raparigas-gatas

Dudu e Zuleica

— insfingizado, para que uma palavra

meta muitos sentimentos

(— Deus me perdoe

este pecado contra a língua!...)

— aqui sentado, sorvendo o melhor ar,

ar verdadeiramente paradisíaco,

ar claro e leve, estriado de ouro,

o melhor ar que jamais

desceu da lua,

por acaso

ou terá sido por temeridade?

como narram os antigos poetas.

Eu, cético, duvido,

ou não viera

da Europa,

a mais desconfiada de todas as esposazinhas.

Que Deus a melhore!

Ámen.

 

Respirando este ar belíssimo,

de narinas dilatadas como taças,

sem futuro, sem memórias,

assim me eis aqui sentado

ó encantadoras amigas,

e olho para a palmeira,

como ela, qual bailarina,

se torce e se contorce e meneia as ancas

— acompanhamo-la ao olhá-la demoradamente...

qual bailarina que, quer-me parecer,

já há muito, há muito tempo, perigosamente

sempre, sempre se manteve sobre uma perninha só?

— e por isso se esqueceu, como me quer parecer,

da outra perninha?

Debalde pelo menos

procurei a perdida

joia gémea

— ou seja a outra perninha —

na sagrada proximidade

da sua encantadora, graciosíssima

saiinha de leque esvoaçante, de ouropel,

Sim, se vós, ó belas amigas,

me quereis acreditar,

ela perdeu-a...

Ui, ui, ui, ui, ui!...

Desapareceu,

desapareceu para sempre,

a outra perninha!

Ó pobre da outra adorável perninha!

Onde — estará ela abandonada e aflita,

essa solitária perninha?

Talvez medrosa, diante de uma

feroz, amarela, de loura juba

leonina fera? ou já talvez

esburgada, roída —

mísera! ai dela! ai, roída! Sela.

 

Oh, não choreis,

corações sensíveis!

Não choreis,

Ó corações de tâmara! seios de leite!

Ó corações —

bolsinhas-de-alcaçuz!

Sê homem, Zuleica! Coragem! Coragem!

Não chores mais,

pálida Dudu!

— Ou será aqui oportuno

algo mais forte,

revigorante para o coração?

um aforismo consagrado,

uma solene exortação?...

 

Ah!

Avante, dignidade!

Sopra, sopra de novo

fole da virtude!

Ah!

De novo rugir,

rugir moralmente,

rugir como um leão moralista ante as filhas do deserto!

— Porque o berreiro da virtude,

ó encantadoras raparigas,

mais do que tudo é

paixão de europeu, avidez de europeu!

E eis-me aqui agora,

como europeu,

Não posso ser diferente! Valha-me Deus!

                                                                   Ámen!

 

***

 

O deserto cresce: ai de quem abriga desertos!

A pedra range na pedra, o deserto oprime e sufoca.

A tremenda morte olha, com parda ardência

mastiga, — o seu mastigar é a sua vida...

 

Não esqueças, homem, requeimado pela volúpia: tu — és a pedra, o deserto, és a morte...

 

 

Manuela de Sousa Marques

 

1986, 2008

 

Extraído de:

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Reúne os seus trabalhos de ensaística e o elenco das suas traduções, constituindo a principal referência para o conhecimento da sua vida e da sua obra.

 Maria Manuela de Sousa Marques Pinto dos Santos, 2009, 2015.

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