monumento a Goethe e Schiller em Weimar

Wilhelm Meisters Wanderjahre, oder Die Entsagenden, 1821

Goethe em 1787/88, por Angelika Kauffmann 

Goethe com 79 anos, em 1818, por Joseph Karl Stieler

desenho com o busto de Goethe

Goethe em 1787, com 38 anos, por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

Goethe e a educação no 'Wilhelm Meister' – 1943

 

 

Em Portugal pode parecer estranho ouvir falar em Goethe como pedagogo, ou como tendo interesse pelos problemas da educação. Ao nome de Johann Wolfgang von Goethe (1749–1832) ligamos a ideia do grande escritor, poeta e dramaturgo, o autor do Werther e do Fausto, um desses colossos da literatura que, como Homero, Shakespeare, Victor Hugo, são glórias da sua pátria, e mais do que da sua pátria, da Humanidade. Contudo, Goethe, vastamente admirado e glorificado no campo das letras, é muitas vezes insuficientemente conhecido no seu labor científico e frequentemente se ignora o contacto que teve com todos os campos de atividade espiritual nos variados ramos da cultura.

 

Espírito aberto a todos os estímulos, as respostas que lhes deu foram sempre cunhadas com a marca da sua personalidade genial. O desenvolvimento total das suas múltiplas capacidades levou-o a uma grande aproximação ao ideal do homo universalis renascentista. No campo das ciências naturais foi precursor de Darwin, tendo sido o primeiro a aplicar o conceito de 'evolução'. Na física estudou particularmente a ótica fazendo experiências, formulando teorias e dedicando-se à observação do efeito emocional das cores, tendo se antecipado à moderna psicologia experimental. Dado o facetado múltiplo do seu espírito e a pluralidade dos seus interesses, seria para admirar se nada nos tivesse deixado escrito sobre a sua visão do problema educacional. Tanto mais que, na sua época, Rousseau focou o problema pedagógico com uma luz tão intensa e tão nova, que necessariamente chamou a atenção de todo o mundo culto para a temática educativa, estimulando os espíritos e obrigando-os ou a uma adesão entusiástica ou a uma reação violenta. E outros mais, além de Rousseau, agitaram essa questão cuja importância foi nesse tempo bem sentida.

 

Goethe, pois, não só pelas necessidades interiores do seu espírito, como pelas condições da sua época, não podia deixar de tomar uma atitude perante um problema de tão vasta repercussão e de interesse humano tão capital. É no seu romance Wilhelm Meister que vamos procurar a sua mensagem pedagógica revelada em um momento muito especial e característico. Esta sua obra é constituída por duas partes, as quais, embora uma seja a continuação da outra, são um tanto independentes entre si têm até características diferentes. A primeira intitula-se: Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister (Wilhelm Meisters Lehrjahre, 1795/96), e a segunda: Os anos de viagens de Wilhelm Meister, ou os renunciantes (Wilhelm Meisters Wanderjahreoder die Entsagenden, 1821). Ora ao procurarmos descobrir os ideais educativos de Goethe na primeira parte da obra, que pode constituir um todo em si mesma, e que ele escrevera sem ideia de continuação, damos connosco perante uma tarefa ingrata. Wilhelm Meister não é um livro pedagógico à maneira do Emílio de Rousseau, em que o autor nos exprima clara e pormenorizadamente o seu sucesso como educador, e em que o seu propósito seja expor para a nossa edificação o seu método e teorias e ilustrá-las em um caso concreto. Nada disso. Wilhelm Meister é um romance do tipo a que os alemães chamam Bildungsroman (romance de formação), ou seja, romance que tem por centro um único herói cujas fases sucessivas de contacto com o mundo nos mostram como atinge uma harmonia consigo e com a vida. No Wilhelm Meister Goethe narra-nos a carreira e o desenvolvimento espiritual do herói durante a sua mocidade e apresenta-nos os diversos meios em que convive. A expressão da vida é o interesse de primeiro plano do livro; a ação cheia de peripécias e a intriga funcionam como elementos importantes para captar a atenção do leitor. O problema da educação é secundário, isto é, não foi a ideia dominante a que os outros elementos se subordinaram.

 

Se houve uma ideia germe deste romance de Goethe é a que na versão primitiva aparece em relevo: a apresentação de um plano de reforma do teatro. O fragmento dessa primeira versão, descoberto só no séc. XX, chamava-se: A mensagem teatral de Wilhelm Meister (Wilhelm Meisters theatralische Sendung, 1776-1785). Goethe desenvolveu e ampliou este plano e elaborou o romance em que o fundamental é a vida. Os outros problemas, como o da reforma do teatro e o da educação, tornam-se assim acessórios. Além disso, a obra não apresenta para a educação, como para a reforma do teatro, um plano positivo, nela ambos os temas são tratados pela negativa, apresentando-se o que era insatisfatório e urgia alterar. A imposição de sólidos princípios, a subordinação do todo a uma ideia, implicaria uma diminuição da riqueza e da multiplicidade da vida. Goethe, sem nenhuma estreiteza moralista, tende mais a mostrar o que é a vida do que a indicar como ela deveria ser.

 

É no final da primeira parte e na segunda que vemos Goethe enveredar por um caminho um tanto divergente: tratar com ideias e procurar esclarecer e justificar certos princípios. Isso deveu-se à influência do seu amigo e filósofo Schiller, que muitos conselhos e sugestões lhe deu para escrever o Wilhelm. Se observarmos a primeira parte verificaremos que é difícil descobrir o critério pedagógico de Goethe através dos seus personagens, ou dos resultados que atribui à prática desses critérios. Se Goethe só tivesse escrito Os anos de aprendizagem teríamos grande dificuldade em tirar uma conclusão puramente pedagógica sobre a sua mensagem. Mas a segunda parte vem em nosso auxílio porque aí Goethe apresenta-nos com mais clareza a sua visão. Interessante será notar que a sua solução resultará da coordenação das três direções apresentadas em Os anos de aprendizagem. Vamos, pois, começar pela observação da primeira parte para ver como Goethe apresenta o problema educativo: a linha geral do romance consiste em mostrar como e porquê o jovem Wilhelm Meister se enganou na vida. Wilhelm, filho de um negociante, não tem interesse pelo comércio e sente forte inclinação para o teatro. É levado pela sua tendência, e por vários fatores do acaso, a associar-se a uma troupe teatral ambulante e a participar nas suas atividades. Quando o pai morre, Wilhelm, um rapaz cheio de boas intenções, julga ver no teatro o meio ideal para a formação do seu espírito e do seu gosto e pisa pela primeira vez o tablado no papel de Hamlet. Uma vez com influência dentro do grupo de teatro, cujo diretor é seu amigo, procura pôr em prática os planos de reforma, já por si pensados. Wilhelm até aí tem tido grande fé no Destino. Pensa que o Destino o encaminhou para seu bem, atuando através dos acasos que o levaram ao contacto com a troupe ambulante, impelindo-o com mão benévola para onde as suas inclinações o chamavam.

 

Quando Wilhelm entra para o teatro conhece pouco os homens porque analisou em si a natureza humana e não nos homens, e conhece a vida mais através dos poetas do que da sua observação e experiência. Wilhelm, com esta bagagem de entusiasmo, confiança no destino e ingenuidade, sofre grandes desilusões. Em breve começa a descobrir que não tem vocação para ser ator e que, na vida de teatro, não adquiriria a sua tão almejada formação intelectual, estética e física. Desanimado, passa a considerar perdido e estéril todo o tempo passado naquele meio. É nesta altura que encontra reunidos vários nobres com quem já na sua carreira tivera contacto separadamente. Descobre que este grupo de excelentes membros da aristocracia tinha formado uma sociedade com o fim de ajudar secretamente vários jovens a alcançar uma formação, proporcionando-lhes meios para atingirem a mais sólida preparação para a vida. Esta sociedade há já algum tempo se interessara por Wilhelm e a ocultas tinha-o ajudado na sua carreira tornando possíveis certas realizações suas e, por outro lado, misteriosamente o aconselhara a deixar o teatro. Wilhelm admira-se que, tendo aquela sociedade pretendido levá-lo ao bom caminho e sabendo que o teatro não era a sua vocação, não tivesse mais eficazmente procurado tirá-lo da senda errada. Vem então a conhecer qual a estranha teoria educativa seguida pelos componentes da sociedade, principalmente por um certo Abade muito influente sobre os membros de uma nobre e excelente família por ele educados e em cujo castelo, o Castelo da Torre, sede da sociedade, Wilhelm irá passar a viver.

 

Wilhelm é admitido no seio do grémio e é-lhe concedida a sua carta de aprendizagem. Esta era conferida àqueles que, devido aos erros cometidos na vida, reconheciam com nitidez o fim para que tinham nascido e estavam aptos a seguir corajosa e alegremente o seu caminho. Quando Wilhelm reconhece os erros do passado, e reconhece um filho seu como filho, o Abade considera-o absolvido pela Natureza e acabados os seus anos de aprendizagem. Houve uma certa precipitação nesta concessão do diploma, como o próprio Abade mais tarde verificará. Entretanto, urge explicar as estranhas teorias do Abade que o levaram a deixar Wilhelm lavrar em erro. Reduzem-se a três aspetos fundamentais:

 

  • o essencial no homem é o exercício perfeito da atividade;
  • este só é possível com base na vocação ou predisposição natural;
  • e o meio de descobrir essa predisposição natural em cada indivíduo e de a revelar sem possibilidade de dúvida é deixar o homem tomar livremente contacto com a vida.

 

Como consequência deste segundo princípio, a teoria do Abade considera os caminhos falsos que o indivíduo segue na vida não como prejudiciais, mas sim como tendo uma ação benéfica e fecunda. Desenvolvendo estas teorias, segundo as próprias expressões do Abade, vamos ouvi-lo dizer: o dever do educador não é livrar o aluno do erro mas, pelo contrário, deixar que o educando beba dele a largos tragos. Aquele que só prova ligeiramente o erro conserva-o por muito tempo achando-lhe encanto, mas o que bebe da taça do erro até a esgotar acaba por reconhecer o seu mal, a menos que seja louco. Só pelo erro se pode curar o erro. Quanto às tendências e inclinações, o Abade considera ser essencial que o indivíduo siga a sua inclinação para ter uma atividade eficiente.

 

Todos têm uma capacidade especial e não há capacidades indeterminadas. Só a nossa educação – diz o Abade referindo-se à da sua época – torna os indivíduos indecisos; suscita desejos em vez de animar impulsos ou de ajudar as verdadeiras inclinações, dirigindo o esforço para objetos em desacordo com a nossa natureza. Por isso vale mais que uma criança ande mal pelo seu caminho do que siga bem por caminhos alheios. No primeiro caso, ao encontrar o bom caminho, de acordo com a sua natureza, nunca mais o abandonará; no segundo caso estará sempre em perigo de sacudir o jugo alheio e de se entregar a uma liberdade incondicionada.

 

É evidente que o ponto fraco das teorias do Abade está no que respeita ao erro e à forma de o evitar. Se, contrariamente ao que o Abade espera, o indivíduo permanecer no erro, e esgotando-o, lhe não reconhecer o mal? Só em naturezas excecionalmente boas tal sistema poderia dar resultado, como muito bem reconhece no livro uma figura feminina, a tia da família do Castelo da Torre. Esta tia, cujas confissões enchem todo o sexto livro da primeira parte do romance, teve uma formação absolutamente diferente da dos sobrinhos educados pelo Abade, e era o que Goethe chama uma Schöne Seele – ou seja, uma 'Bela Alma'. Observe-se que 'Bela Alma' é um dos conceitos fundamentais do Idealismo Alemão e pode dizer-se que foi Christoph Martin Wieland (1733–1813) o primeiro a exprimir este ideal na Alemanha, no seu romance Geschichte des Agathon (1766-1767), depois de o ter bebido em parte na obra de Anthony Ashley Cooper, 3º Conde de Shaftesbury (1671–1713) e nos filósofos gregos. A 'Bela Alma' era aquela em que as inclinações naturais e a voz do dever se identificam, em que não há divórcio entre o ideal e o real.

 

A 'Bela Alma' apresentada na obra por Goethe era pietista. Tinha-se formado em contacto com Deus, o seu grande Amigo Invisível. Conta-nos como, analisando-se continuamente, descobriu que a sua alma só encontra verdadeira felicidade, verdadeira paz e consolo, quando se dirige para Deus e com ele entra em contacto. Para isso afasta todos os obstáculos, como os divertimentos mundanos, e continuando a observar-se e a pôr a nu o seu íntimo chega à conclusão de que só a crença, a fé absoluta em Deus e na Redenção, a poderiam livrar do mal, impedindo o desenvolvimento dos germes malignos da nossa natureza corrupta. Purifica-se de tal modo que tudo faz como impulso, nada como mandamento ou lei; as suas intenções, depuradas pelo seu convívio com o divino, levam-na sempre ao Bem.

 

Esta é uma alternativa educativa oferecida no romance em oposição às teses do Abade. Há ainda uma terceira direção, representada por uma outra alma bela, um ser de eleição, sobrinha da senhora pietista e discípula do Abade: Natália, com quem Wilhelm vem a casar. Natália não é de opinião que se deixe o homem livremente procurar o seu caminho e errar. Acha que vale mais errar conhecendo as regras que o podem evitar, do que errar segundo o nosso livre arbítrio. Há certas leis que se devem incutir no espírito da criança, porque diz ela: «Vejo na natureza humana uma lacuna que só pode ser preenchida por uma lei. Só a lei moral pode dar um apoio seguro à vida». E quanto à ação do educador diz: «Quem não ajuda no momento próprio parece-me que nunca ajuda; quem não aconselha no momento próprio, parece-me que nunca aconselha».

 

Temos assim expostas as três possibilidades educativas apresentadas em Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister. Wilhelm, no fim do livro, alcança uma felicidade que ele confessa não merecer: a mão e o amor de Natália. Mas Wilhelm ainda não adquiriu a maturação de espírito suficiente que lhe permita seguir com autonomia e sem vacilações o seu caminho na vida. Wilhelm estava convencido que errara, mas não estava seguro do modo como remediar o erro. Mesmo sentindo o que não deveria fazer, isso não lhe diminuía a ignorância daquilo que deveria fazer. O próprio Abade parece ter-se compenetrado disso e aconselha-o, antes do casamento, a fazer uma viagem pela Itália. Assim acaba a primeira parte da obra com problemas em suspenso e por esclarecer. Schiller sentiu-o e foi essa a razão que o levou a instigar Goethe a escrever uma continuação do romance. Schiller, em carta a Goethe, diz-lhe que gostaria que ele tratasse com mais clareza e mais a fundo certas questões, isto é, completasse a formação, a Bildung de Wilhelm, e que este (citando as suas próprias palavras) «aparecesse com perfeita autonomia, segurança, liberdade e firmeza arquitetónica». Goethe sente a justeza das reivindicações do amigo, aproveita-lhe o conselho, e põe mãos à obra: escreve a segunda parte do romance, intitulada: Os anos de viagens de Wilhelm Meister, ou os renunciantes.

 

A intriga e a ação romanesca faltam quase em absoluto nesta segunda parte. Em compensação, além da pedagogia, trata de política, de economia, de moral e de religião. O livro torna-se um repositório de preceitos derivados da experiência do velho Goethe e chega a oprimir pelo seu didatismo. Wilhelm Meister e os seus companheiros aparecem-nos adquirindo a verdadeira Bildung: descobrem que o homem não é feliz enquanto o seu esforço incondicionado não determina a si próprio uma limitação. Aprendem a renunciar e chegam à conclusão de que o melhor que cada um tem a fazer na vida é limitar-se a exercer bem um ofício, que à verdadeira formação pertence saber a fundo uma coisa e não o saber de tudo um pouco, sem nada exercer com eficiência. É um ideal de ação útil do indivíduo em prol de si e da comunidade. Wilhelm e a Sociedade da Torre têm agora um projeto de emigração para a América. Tencionam aí constituir um Estado assente em bases mais justas do que os Estados europeus e o estudo dessa estrutura que Goethe apresenta tem chamado a atenção dos interessados pelos problemas de organização política. Sobre educação basta-nos saber que os colonos desse Estado tinham como condição essencial para a admissão a perícia no exercício de qualquer ofício. Wilhelm torna-se então um distinto médico cirurgião e todos os seus amigos, homens e mulheres, aprendem uma profissão e nela praticam com afinco.

 

Mas Wilhelm, tendo ele próprio encontrado o seu caminho na vida, defronta-se com um problema; o da educação de seu filho Félix. Quer que Félix obtenha a sua formação sem ter de percorrer um caminho tão cheio de enganos e de rodeios como o dele. Para atingir tal objetivo é-lhe recomendada a Província Pedagógica como lugar ideal para uma educação perfeita. Wilhelm resolve levar para lá o filho e, como é aqui que está a chave do segredo da pedagogia de Goethe, vamos seguir Wilhelm e ver o que aí encontra e como é esclarecido sobre o que lá se passa. Quando Wilhelm penetra na Província e à medida que nela avança procurando as entidades a quem a sua carta de apresentação vai dirigida, a sua curiosidade é suscitada pelo que vê nos campos que atravessa. Os trabalhos agrícolas são executados por rapazes de diversas idades, vestidos todos com trajes, cores e feitios diferentes. Quando os visitantes – Wilhelm e o filho – passam por eles, acompanhados por um professor vigilante, que andava dirigindo os trabalhos e que se tinha oferecido para levar Wilhelm aos diretores, nota que os rapazes cumprimentam de três modos especiais. Os menores de entre todos olhavam para o céu e cruzavam os braços no peito; já outros punham as mãos atrás das costas e olhavam sorrindo para a terra; e outros ainda punham-se em sentido e em fila, virando a cabeça para a direita. Wilhelm, admirado com estes gestos, pergunta ao seu guia o que significam. Este lamenta não o poder elucidar pois essa prerrogativa pertenceria aos diretores, mas afirma-lhe que em breve a sua curiosidade será satisfeita. Só lhe explica que o modo de saudação é o sinal pelo qual os professores reconhecem o grau de desenvolvimento dos educandos. Mais adiante, Wilhelm nota que os rapazes fazem os seus trabalhos cantando canções apropriadas às diferentes tarefas que executam. O professor dá então a conhecer que a música é a base da educação naquela Província. É o primeiro grau de educação e todo o resto assenta nela e é por ela ensinado, até mesmo a moral e religião. Diz-lhe que os exercícios musicais facilitam a aprendizagem da leitura e da escrita e ensinam a valorizar a matemática. Como Wilhelm perguntasse se não era ensinada música instrumental, o seu guia afirma-lhe que sim, mas que era cultivada em outra zona da Província. Aí se treinavam os principiantes a dominar as dificuldades técnicas, podendo afastar-se suficientemente uns dos outros de modo a não se incomodarem mutuamente com as desafinações naturais na aprendizagem de qualquer instrumento.

 

Chegam por fim os viajantes ao edifício onde esperam encontrar o Diretor, ou regente superior. Não encontram este, mas Wilhelm é recebido pelos seus três delegados que guardam os santuários. São estes que irão esclarecer Wilhelm quanto aos princípios que orientam a Província: a criança sã e bem nascida recebeu da natureza tudo o que necessita para a sua vida e que, na maioria dos casos, se desenvolve por si; há uma única coisa que ninguém traz consigo quando nasce e que, contudo, é essencial para o homem ser verdadeiramente humano: a veneração. É este valor que o educador deve imprimir no homem e é essa tarefa que se realiza na Província. Aí ensinam um triplo conceito que só sendo realizado sob essa forma obtém a máxima força. É ministrado em três graus sucessivos:

 

  • no primeiro grau ensina-se a veneração pelo que está acima de nós e exige-se das crianças o testemunho de que há um Deus lá no alto, que se lhes revela nos pais e nos superiores: a este grau corresponde a primeira forma de saudação;
  • o segundo grau é o da veneração pela terra e por aquilo que está abaixo de nós; nesse grau aprendem os educandos que a terra é, ao mesmo tempo, ponto de subsistência e de prazer, mas também de muita dor;
  • a terceira espécie de veneração é a do homem pelo seu semelhante e o que o leva a fazer face, seguro de si, ao mundo e aos seus iguais.

 

O medo, dizem os representantes do Superior da Província, é natural no homem, mas a veneração não. A vida do homem natural é um constante vaivém entre o temor e a liberdade. Temer é fácil, mas incómodo; venerar é difícil, mas cómodo. O sentido de veneração deve ser ensinado ao homem e só em alguns eleitos, os santos ou os deuses, se desenvolve a partir da própria natureza. O objetivo das religiões e a sua dignidade está nestas três formas de veneração. Ali não se considerava nenhuma religião que tivesse por base o medo. As três religiões são: a étnica (ethnische), que assenta na veneração do que está acima de nós; todas as chamadas religiões pagãs são desta espécie. A segunda é a filosófica (philosophische) que se fundamenta no que é igual a nós. O filósofo faz descer a si tudo o que lhe fica superior e subir a si tudo o que lhe é inferior. Só assim, nesta posição intermédia, se encontra o verdadeiro sage e só ele, no verdadeiro sentido cósmico, vive de verdade. A terceira religião baseia-se no que está abaixo de nós: é a cristã (christliche). Mas são estas três religiões juntas que formam a verdadeira religião. Das três espécies de veneração resulta no homem a veneração por si próprio e, por sua vez, todas elas se desenvolvem a partir desta mesma. O homem chegado ao mais alto grau pode-se considerar como o melhor que foi criado por Deus e pela Natureza.

 

Wilhelm fica maravilhado com a elevação e a justeza destas doutrinas, aprovando também o modo como a pouco e pouco se iniciam as crianças nesta tríplice veneração: pelos gestos, cujo valor simbólico lhes é depois explicado até que finalmente lhes revelam o seu significado mais alto. Os três representantes do Superior ainda têm que mostrar a Wilhelm mais alguma coisa para ele ficar a conhecer bem em que mãos deixa o filho. Por isso, levam-no a visitar uma galeria em cujas paredes está pintada a História do Mundo tal como vem na Bíblia. Viu representados em frisos os sucessos correspondentes da História do Mundo de outras religiões pagãs, como a dos gregos, por exemplo. Era aí que, por meio dessas representações, era ensinada a religião étnica. Passam seguidamente a outra galeria onde era apresentada a Doutrina e a Vida de Cristo por milagres e parábolas: os primeiros transformam o vulgar em extraordinário, as segundas transformam o extraordinário em vulgar. Ali, dizem os três guardas do Santuário, está a doutrina viva e indiscutível; não é a opinião sobre o bom e o justo, mas o próprio bem e o justo irrefutáveis, e justificam que só apresentam a vida de Cristo até à sua despedida dos Apóstolos na Ceia, sem apresentar cenas da Paixão, porque foi em vida que Cristo foi filósofo, o sage, elevando até si os pobres e infelizes e afirmando a sua origem divina. A sua vida é mais cheia de ensinamentos do que a sua morte. Como Wilhelm, contudo, se admirasse de que não se apresentassem como exemplo de sublime martírio as cenas da Paixão de Cristo, eles explicam que têm demasiada veneração por elas para as apresentar em imagens, mas que não fazem delas segredo para os educandos. Depois disso nada mais pode ser revelado a Wilhelm. Aquilo mesmo é o que é ensinado aos rapazes, em diferentes graus de desenvolvimento. Na religião proveniente da veneração do que está abaixo de nós só são verdadeiramente iniciados quando acabam a sua educação e saem da Província. Querem que eles entrem na vida tendo em mente que a terra os exporá a muitas provações e dores.

 

Wilhelm é convidado a assistir à grande festa anual, a que costumam estar presentes os pais dos alunos, e que era a festa de despedida para aqueles cuja educação estava completa. Nessa altura, Wilhelm visitaria as regiões da Província em que eram praticados os vários ramos do ensino, segundo normas especiais. Antes de sair da Província, Wilhelm aprende que a variedade de fatos e cores que encontrara provinha da teoria defendida pelos Superiores de que o uniforme encobre o caráter da criança e as suas particularidades.

 

Wilhelm sai satisfeito da Província pensando que seu filho gozará do benefício de uma boa educação. E continua as suas viagens. Acompanhemo-lo agora de novo quando lá volta, passados meses, para visitar o filho, inquirir dos seus progressos e para assistir à festa. Encontra Félix guardando cavalos, Félix que, antes de entrar na Província, mostrava ser um cavaleiro entusiasta. Depois das primeiras expansões, Wilhelm dirige-se com o filho para o lugar onde se realizava a feira, que era a festa dessa região. Aí encontra o mestre vigilante, seu antigo guia, que lhe explica muito do que vê e lhe mostra que, apesar da aparente balbúrdia, ele e outros mestres mantêm a ordem e a disciplina. Wilhelm pensa encontrar-se em Babel: à sua volta ouve falar todas as línguas do mundo. O mestre conta-lhe que à província acorriam educandos de várias terras e raças e que eles, para impedir que os rapazes se agrupassem em partidos segundo as suas nacionalidades, tinham determinado que, em cada mês, todos falassem uma só língua. A festa a que Wilhelm estava assistindo era a dos guardadores do gado. Estes, para não se animalizarem, compensavam essa atividade rude e puramente física dedicando-se ao estudo aturado de línguas e da gramática. Félix decidira-se pelo italiano, e como ali a música estava na base de tudo, nas horas vagas da sua vida de pastor cantava agradáveis canzoni.

 

Como cada região em que se cultivava um ramo especial de atividade tinha uma festa para si, Wilhelm vai visitar a região da música instrumental. Num vale ameno encontram-se várias cabanas espalhadas e a tal distância que os sons produzidos em uma não chegam às outras. Nesta zona não só se aprende música instrumental e coral, cultiva-se ao mesmo tempo a poesia lírica e a dança. Os alunos aprendem como, para benefício de ambas, se interinfluenciam a poesia e a música. Wilhelm sai da região da música e entra na das artes plásticas. Aí encontra uma cidade cujas construções se distinguem pela beleza, harmonia e conforto. Como Wilhelm pergunta por que há tanta diferença entre as habitações dos músicos e as dos artistas plásticos, o seu guia responde-lhe: os músicos vivem dobrados sobre si mesmos e seria prejudicial estimular-lhes demasiado o sentido da visão, que se exerceria em prejuízo da audição; pelo contrário, o artista plástico deve constantemente transformar o seu sentido do belo em formas exteriores e se é chamado a construir coisas belas deve viver no ambiente do belo.

 

Naquela cidade todos trabalham segundo leis rígidas, nada é deixado ao arbítrio daquele que aprende. A matéria em que trabalha, o instrumento, e o modo como dele se deve servir, tudo lhe é fornecido sem possibilidade de escolha. E são aqueles que têm verdadeiro génio e talento que melhor se submetem a estas leis especiais da arte, porque reconhecem que a arte se chama justamente Arte por não ser Natureza. Aqui não há festa, todo o ano para eles é uma festa. E diz o professor: o arquiteto é ensinado a não construir erros; o que tem que ser erigido deve ficar bem erigido e o mais duradoiro possível; para isso o plano é pensado e discutido centenas de vezes. Quando é executado, tem de o ser com segurança, não deve haver qualquer tentativa ou experiência na construção. Aos escultores e pintores é dada maior liberdade; apresentam um plano e se este é suscetível de execução ela será permitida, sendo-lhes geralmente concedido que inutilizem o trabalho se este, depois de executado, lhes não agradar.

 

Wilhelm, lembrando-se do que vira nas outras regiões, pergunta qual a arte cultivada a par das artes plásticas e obtém como resposta: poesia épica. Os alunos não liam nem declamavam poemas de poetas antigos ou modernos; era-lhes dado o assunto mitológico ou lendário, e cada um, segundo as possibilidades do seu talento, o transformava em poesia. Wilhelm tem ocasião de apreciar vários artistas trabalhando na execução de uma obra que representava um grupo de figuras em batalha. A unidade de conceção é dada por um artista que, aproveitando as sugestões e contribuições dos seus colaboradores, as coordena e elabora no seu espírito, formando um todo harmónico. Ao mesmo tempo Wilhelm tem ocasião de apreciar como era cultivada a outra arte: um jovem mostra-lhe o seu talento épico improvisando um poema sobre o grupo em que está trabalhando e consegue dar vida e movimento às figuras pela sua narração. Wilhelm, depois de os ter ouvido cantar uma espécie de hino, perguntou ao professor se a arte dramática não era cultivada em parte alguma daquela instituição. Veio assim a saber que a arte de Thália ou Melpómene era tida em pouca conta na Província. Apesar de se servir das outras artes, em vez de lhes dar impulso, estragava-as, embora geralmente se acreditasse o contrário. Contudo, como era princípio basilar da Província que nenhuma vocação natural fosse forçada ou desaproveitada, se se manifestassem com persistência tendências histriónicas em um educando este seria mandado para qualquer grande teatro da Europa, tal era o respeito que existia pela inclinação natural.

 

Estamos chegados ao fim desta peregrinação pela Província. Os três representantes do Superior, autoridade máxima, tinham-se espalhado pela Província para ver, com a ajuda dos professores, como as coisas corriam e, se necessário fosse, fazer as alterações que lhes ditasse a experiência. Wilhelm, depois de um banquete na região das minas, despede-se da Província convencido da excelência dos princípios em que nela era baseada a educação. E nós, acompanhando Wilhelm, qual é a impressão com que ficamos desta estranha e fantástica realização, que, aliás, não é produto puro da imaginação de Goethe? Parece que teve em mente, ao descrevê-la, o instituto de Philipp Emanuel von Fellenberg (1771-1844) em Hofwyl, na Suíça. De um modo geral ficamos com a impressão de que, por detrás deste cenário estranho da Província, se encontram princípios teóricos sãos e válidos, e outros criticáveis. Tem-se frequentemente considerado esta fantástica instituição pedagógica como uma utopia. E é uma utopia em dois sentidos: no sentido de ser impossível de realizar e no sentido dos resultados irrealistas da sua realização. Nos aspetos apresentados ela não corresponde ao fim que os princípios teóricos têm em vista. A sua falta de viabilidade prática deriva do facto de Goethe ter deixado imprecisos e indeterminados muitos pontos importantes para a sua realização. Deixa-se arrastar por considerações artísticas e religiosas e descura pormenores importantes para dar à Província Pedagógica uma aparência mais real. Por isso ficamos com a impressão de cenário e de teoria disfarçada em prática. É também devido ao seu aspecto teórico que é utopia nos resultados da prática que propõe. Porque essas teorias ou não dão o resultado correspondente, ou dão-no utilizando processos por vezes pitorescos e aos quais não vale a pena recorrer.

 

Para ilustrar estas considerações acerca da Província vou procurar distinguir o que nela é princípio são e válido, o que é princípio criticável e o que é prática que não corresponde ao princípio. No domínio das aquisições valiosas no campo teórico destaca-se o princípio fundamental educativo da Província que consiste na descoberta da vocação no educando e no seu desenvolvimento na atividade correspondente. Atualmente foi reconhecido o valor e a importância deste princípio, que impera incontestavelmente na educação moderna. Um outro princípio importante na pedagogia de Goethe é este: a tarefa do educador consiste em preencher uma lacuna existente na natureza humana, dando ao homem um apoio religioso-moral apresentado sob forma das três venerações que levam à tríplice religião. Goethe justifica assim as exigências de Natália e da Tia que, na primeira parte do romance, objetavam à teoria da educação do Abade a sua falta de direção moral-religiosa, a única que, segundo elas, permitiria que o homem seguisse o seu caminho na vida sem hesitar, sem vacilar, com passo seguro e decidido para a verdadeira dignidade humana. A finalidade proposta, criar no homem uma convicção moral e firme, é plenamente justificada. Que para tal haja necessidade de fazer intervir a religião parece-me discutível. E que essa convicção seja imposta, mesmo que fosse sob o aspeto da doutrina ético-religiosa mais sublime, é o que já não parece digno de aprovação. São lamentáveis como processo educativo alguns aspetos de utilidade moral imediata no decorrer da educação, como por exemplo o de recorrer à religião das forças superiores para incutir no espírito do educando o respeito e a veneração pelos pais e pelos professores. Também quando Goethe preconiza, na sua Província, que a música seja a base de todas as aquisições espirituais, ele apresenta-nos um conceito criticável. É uma fantasia de aspeto aliciante e bem caracteristicamente alemã. Em qualquer outra parte do mundo seria difícil ter surgido tal ideia, que só na Alemanha, aliás, teria probabilidades de execução, pois dificilmente se encontra esta sensibilidade musical tão ampla e fortemente noutros povos. Goethe, aliás, ao tornar a música a base obrigatória de toda a atividade da Província Pedagógica, ia de encontro ao seu principio fundamental do respeito pela vocação: o privilégio dado à música em detrimento das outras artes como veículo de todas as aquisições e condição sine qua non da Bildung seria um obstáculo à formação de quantos educandos não possuíssem talento musical; injustamente se veriam inibidos de levar a cabo a sua educação.

 

Uma outra conclusão surpreende: a aprendizagem das diversas atividades só na prática (a não ser talvez a arquitetura). Através da Província não encontramos rastro de ensino teórico. Todos se encontram em treino e praticando. Também nisto parece haver exagero. Se, na verdade, a prática deve desempenhar um papel importante na aprendizagem, se se aprende melhor fazendo do que ouvindo dizer como se faz, isto não significa que a teoria não seja também necessária e útil. A prática e a teoria são complementares e devem caminhar lado a lado, a prática fortificando a teoria e a teoria guiando a prática. Goethe não afirma, de resto, que na sua Província não fosse ministrado o ensino teórico. E ficamos assim na dúvida se ele realmente existiria. Podemos ser levados a crer que sim, mas em grau muito reduzido. É um dos tais pontos deixados no vago, e uma das tais insuficiências que impediriam a realização da Província a partir dos seus dados.

 

Goethe, ao contrário de Rousseau, é partidário da educação em comum. Se o homem na vida tem que viver e colaborar com outros homens, é conveniente que cresça e se eduque em contacto com os companheiros que serão os homens da sua geração. É um ponto de vista defensável nos limites em que não implique um afastamento completo da família, como o que se verifica na Província Pedagógica. Aí os filhos só veem os pais uma vez por ano e perdem o contacto com o ambiente do seu lar, cujas doçuras e benéfica influência ignoram e talvez nunca aprendam a apreciar. Goethe condena explicitamente a educação dos filhos junto dos pais: a estes atribui sempre a fraqueza de amar as imperfeições dos filhos e desconhecer-lhes as suas reais qualidades. Não haverá aqui uma certa dose de preconceito?

 

Falta referir um caso que ilustra o desacordo entre a realização prática e a boa intenção teórica. É o caso das línguas. Goethe como poliglota sentiu e muito bem o valor que elas tinham na educação do indivíduo, aumentando o âmbito das suas possibilidades de conhecimento e compreensão do semelhante. Mas repare-se como ele se propõe conseguir esse objetivo na Província: obrigando os rapazes a falar uma língua cada mês. Suponho que os infelizes só falariam à vontade um mês por ano: aquele em que a língua obrigatória fosse a da sua terra natal. Porque, de resto, apesar da prática intensiva que tinham em cada mês, nunca poderiam vir a dominar bem as outras línguas. Aquilo que tivessem conseguido aprender em um mês esqueceriam nos meses seguintes.

 

É notável que também não encontremos na Província a aprendizagem e prática da ciência, nem mesmo o seu rastro sequer. Da parte de um cientista é inesperado. Para nós é tanto mais lamentável porque Goethe, como artista, tem considerações interessantíssimas acerca da arte, dos seus fins e meios, e da natureza especial de cada um dos seus ramos. Isto mesmo constitui um dos componentes de maior interesse da Província, independentemente do valor da teoria fundamental que informa a sua realização e do estímulo que é para a nossa curiosidade e reflexão o seu aspeto e cenário estranhos.

 

E assim concluímos a nossa apreciação crítica das teses educativas de Goethe, tal como expressas através da aprendizagem e das viagens de Wilhelm Meister.

 

 

Manuela de Sousa Marques

 

 

Estudo redigido em 1943 como parte dos trabalhos da licenciatura em Filologia Germânica para a cadeira de 'História da Educação', regida pelo Professor Delfim Santos.

 

Revisto pela Autora em 2009.

 

Agradecimento a Palmira Matela pela digitação do texto.

 

 

Outros materiais sobre o Wilhelm Meister:

 

 

— Vinícius Gomes Machado (2012) Viagem Inacabada: Goethe e 'Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister', Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

Philipp Emanuel von Fellenberg

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 Maria Manuela de Sousa Marques Pinto dos Santos, 2009, 2015.

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