Sena Delfim correspondência

RESPOSTAS AO INQUÉRITO DE JORGE DE SENA SOBRE ANDRÉ GIDE – 1951

 

 

As respostas de Manuela de Sousa Marques ao inquérito de Jorge de Sena destinavam-se à revista Unicórnio mas mantiveram-se inéditas durante 60 anos, sendo apenas publicadas em

Jorge de SENA & Delfim SANTOS, Correspondência 1943-1959, org. Filipe Delfim Santos, apresentação Mécia de Sena, nota complementar de José-Augusto França, Lisboa, Guerra e Paz: 48-51.

 

Extrato da resposta à pergunta n.º 3:

 

Penso que Gide não terá criado uma exemplaridade. Contemporaneamente vemo-lo como o menos venerado de entre os da sua geração, e até entre os mais novos muitos se lhe adiantaram na captação de discípulos e incondicionais admiradores. Parece-me que Gide, no que aliás o seu destino se assemelha a muitos dos maiores, nunca conseguiu ser totalmente aceite. O que menos lhe negaram foi a capacidade estilística e a pureza da linguagem, enfim o dom artístico.

 

Mas. como destino humano, raros são os críticos que possuem a coragem de o tornar exemplar: Gide não é um guia. Soube descontentar todos e a ninguém contentar; e por isso mesmo a sua obra não é um todo homogéneo, e os que se deixam fascinar por alguns dos seus livros irritam-se pensando que afinal ele também escreveu os outros. Os que amam La Porte Étroite deixam-se afugentar pela L'École des femmes, aceitam a beleza das Nourritures mas só leem Si le grain ni meurt na edição expurgada, e afastam do seu espírito a antipática ideia de que Gide foi o impudente autor de Corydon. Os que se entusiasmam pela ousadia do Immoraliste, pelo ateísmo das Caves ou dos Faux-monnayeurs pretendem ignorar o Nunquid et tu e todos até mesmo os que parecem mais admirá-lo, atiraram a sua pedra, sinal de obscura resistência. Ora o acusam de orgulho ora de falsa sinceridade, ora de impudor ora de excessivos escrúpulos, ora de ateísmo ora de teologismo. Mesmo os que estão cheios de boa vontade esbarram com o Corydon e com certas páginas do Journal.

 

E tudo isto foi manifesto nos artigos publicados nos jornais franceses por ocasião da morte de Gide. Era difícil conceber homenagens mais reticentes, menos laudatórias ou à contre-coeur laudatórias. Em todos os artigos se descobre uma mancha negra. Ou era a sua ininteligência filosófica ou um paralelo com Valéry (esse unanimemente aclamado como o vigário da intelligentsia sobre a Terra) em que Gide ocupava o lugar do colega humilde e venerador, ou a impureza das mãos gideanas, ou qualquer outro ato ou gesto que o pudesse colocar a uma luz menos favorável junto do leitor desprevenido: a sua incompreensão de Proust (aliás com que fundamento?) ou a sua injustificada (?) atitude para com Charles du Bos, etc. etc. É espantoso o que foram malignamente desencantar.

 

E a imagem que assim, no público incauto, se vai formando de Gide é a do pederasta, do egotista impudico mas grande artista sim, artista no sentido simbolista-parnasiano que hoje tende a desaparecer, no qual se faz notar ainda aqui o aspeto negativo da não abundância nem fluência de estilo.

 

Talvez os existencialistas o pudessem compreender. Mas também não: «Les Nourritures m'agacèrent... La morale de Nathanael, morale de grand-bourgeois ayant mis de côté les problèmes politiques et sociaux, les problèmes politiques qui nous absorbaient, ne pouvait nous suffire. Valéry, racionaliste comme nous, m'atteignit bien d'avantage». Assim se pronunciou Sartre e nenhum campo adotou Nathanael. Ele é demasiado racionalista para os que o aceitariam sensualista ou místico, e demasiado pouco racionalista para os que só como tal o poderiam aceitar.

 

Nathanael só pode ter poucos amigos, todos eles solitários, preocupados com o indivíduo e não com a espécie, valorizadores do espírito, da alma, da natureza, da matéria, mas alheios ao materialismo, como ao catolicismo, como ao sensualismo, como ao espiritualismo per se. Homens totais.

 

 

Manuela de Sousa Marques

 

1951, 2012.

Gide em 1891

Gide em Biskra, 1893

Gide em Paris, 1894

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 Maria Manuela de Sousa Marques Pinto dos Santos, 2009, 2015.

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